Couraça de São Patrício

Proteção

Couraça de São Patrício: a oração completa e a sua história

A antiga oração irlandesa “Eu me levanto hoje”, completa, com a história verdadeira do texto e o sentido de cada estrofe

A Couraça de São Patrício é uma antiga oração irlandesa de proteção que começa com “Eu me levanto hoje, por uma força poderosa, a invocação da Trindade” e tem no centro a estrofe “Cristo comigo, Cristo à minha frente, Cristo atrás de mim”. A tradição a atribui a São Patrício, apóstolo da Irlanda no século V, mas o texto que chegou até nós é mais tardio, de por volta do começo do século VIII. No AngelGuard você encontra a oração completa, numa tradução feita por nós a partir da versão clássica de Kuno Meyer (1911) e conferida com o texto irlandês antigo, com a história e o sentido de cada estrofe.

Eu me levanto hoje

por uma força poderosa, a invocação da Trindade,

pela fé nas três Pessoas,

pela confissão da unidade

do Criador da criação.

Eu me levanto hoje

pela força do nascimento de Cristo com o seu batismo,

pela força da sua crucifixão com a sua sepultura,

pela força da sua ressurreição com a sua ascensão,

pela força da sua vinda para o Juízo Final.

Eu me levanto hoje

pela força do amor dos querubins,

na obediência dos anjos,

no serviço dos arcanjos,

na esperança da ressurreição para receber a recompensa,

nas orações dos patriarcas,

nas predições dos profetas,

na pregação dos apóstolos,

na fé dos confessores,

na inocência das santas virgens,

nas obras dos justos.

Eu me levanto hoje

pela força do céu:

luz do sol,

brilho da lua,

esplendor do fogo,

rapidez do relâmpago,

ligeireza do vento,

profundeza do mar,

estabilidade da terra,

firmeza da rocha.

Eu me levanto hoje

pela força de Deus que me conduz:

o poder de Deus para me sustentar,

a sabedoria de Deus para me guiar,

o olhar de Deus para ver adiante de mim,

o ouvido de Deus para me ouvir,

a palavra de Deus para falar por mim,

a mão de Deus para me guardar,

o caminho de Deus aberto à minha frente,

o escudo de Deus para me proteger,

as hostes de Deus para me salvar

das ciladas dos demônios,

das tentações dos vícios,

das inclinações da natureza,

de todos os que me querem mal,

de longe e de perto,

sozinhos ou em multidão.

Hoje chamo todas essas forças para ficarem entre mim e esses males:

contra todo poder cruel e sem piedade que se levante contra o meu corpo e a minha alma,

contra os encantamentos dos falsos profetas,

contra as leis escuras do paganismo,

contra as falsas leis dos hereges,

contra as artimanhas da idolatria,

contra os feitiços de mulheres, de ferreiros e de druidas,

contra todo saber que corrompe o corpo e a alma do homem.

Cristo, protegei-me hoje

contra o veneno, contra o fogo,

contra o afogamento, contra as feridas,

para que me venha recompensa em abundância.

Cristo comigo, Cristo à minha frente, Cristo atrás de mim,

Cristo em mim, Cristo abaixo de mim, Cristo acima de mim,

Cristo à minha direita, Cristo à minha esquerda,

Cristo quando me deito, Cristo quando me sento,

Cristo quando me levanto,

Cristo no coração de todos os que pensam em mim,

Cristo na boca de todos os que falam de mim,

Cristo em todo olho que me vê,

Cristo em todo ouvido que me ouve.

Eu me levanto hoje

por uma força poderosa, a invocação da Trindade,

pela fé nas três Pessoas,

pela confissão da unidade

do Criador da criação.

Do Senhor é a salvação,

do Senhor é a salvação,

de Cristo é a salvação.

Que a vossa salvação, Senhor, esteja sempre conosco. Amém.

Tradução AngelGuard a partir da versão inglesa de Kuno Meyer (1911, domínio público), conferida com o texto irlandês antigo; oração tradicional atribuída a São Patrício.

Aprofundar

Por que ela se chama “couraça”

1 min de leituraCouraça é a peça de armadura que protege o peito do soldado.

Couraça é a peça de armadura que protege o peito do soldado. Em latim, lorica. Nos mosteiros irlandeses dos séculos VI a VIII, surgiram várias orações desse tipo, as “loricas”, em que o cristão, antes de começar o dia ou de sair para um caminho perigoso, se reveste de Deus como quem veste uma armadura. A de São Patrício é a mais conhecida delas.

A imagem vem de São Paulo. Na tradução do Padre Figueiredo: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as ciladas do diabo” (Ef 6,11); e, na mesma passagem, “vestidos da couraça da justiça” (Ef 6,14). Em outra carta, a couraça ganha o nome das virtudes: “estando vestidos da couraça da fé, e da caridade, e tendo por elmo a esperança da salvação” (1Ts 5,8). E, no fundo, a armadura é uma pessoa: “revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,14).

É isso que a Couraça faz. Ela não fabrica uma proteção; ela lembra, estrofe por estrofe, em quem o cristão já está envolvido desde o Batismo: na Trindade, nos mistérios de Cristo, na companhia dos anjos e dos santos, na criação de Deus.

São Patrício e a verdadeira história do texto

2 min de leitura

São Patrício viveu no século V. Na Confissão, um dos dois escritos que os historiadores reconhecem como seus, ele conta que foi levado da Britânia para a Irlanda como escravo aos dezesseis anos, que passou seis anos pastoreando rebanhos e rezando, e que, depois de fugir, voltou à ilha como bispo para anunciar o Evangelho. A tradição fixa a sua morte em 17 de março, dia em que a Igreja celebra a sua memória. Ele é o padroeiro da Irlanda.

A Couraça é atribuída a ele, mas o texto que chegou até nós é posterior. Escrita em irlandês antigo, pela forma da língua os estudiosos a situam por volta do começo do século VIII, uns duzentos anos depois de Patrício. Ela aparece, incompleta, numa vida do santo do século IX, e inteira no Liber Hymnorum, uma coleção de hinos do século XI conservada em dois manuscritos em Dublin. Dizer isso não diminui a oração: ela nasceu na Igreja que Patrício fundou e é rezada há mais de mil anos. As linhas finais (“Do Senhor é a salvação…”) estão em latim nos manuscritos e ecoam o Salmo 3.

O Liber Hymnorum conta, numa nota, que Patrício a cantou quando o rei Loegaire armou uma emboscada para impedi-lo de chegar a Tara, e que os soldados só viram passar cervos com um filhote. Daí o nome irlandês Fáeth Fiada, entendido como “o grito do cervo”; os linguistas hoje preferem ler “névoa que esconde”. É uma lenda piedosa, contada como lenda. O nome latino Lorica Patricii, “Couraça de Patrício”, é registrado pelo sacerdote e historiador irlandês John Colgan, em 1647.

O sentido da oração, estrofe por estrofe

2 min de leituraA Trindade.

A Trindade. A oração começa e termina no mesmo lugar: “a invocação da Trindade”. O Catecismo chama o mistério da Santíssima Trindade de “mistério central da fé e da vida cristã”, a fonte de todos os outros mistérios (Catecismo da Igreja Católica, CIC 234). Quem se levanta “pela fé nas três Pessoas” está repetindo, com outras palavras, o sinal da cruz. É assim que o cristão começa o dia: “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, e o Catecismo acrescenta que o sinal da cruz fortalece nas tentações e nas dificuldades (CIC 2157).

Os mistérios de Cristo. Nascimento e batismo, cruz e sepultura, ressurreição e ascensão, a vinda no fim dos tempos: a segunda estrofe é um pequeno Credo. A força em que o cristão se levanta não é a dele, é a da vida inteira de Jesus.

Os anjos e os santos. Querubins, anjos e arcanjos, patriarcas e profetas, apóstolos, confessores, virgens e justos: é a comunhão dos santos. Ninguém reza sozinho. O Catecismo lembra que, desde este mundo, a vida cristã participa pela fé da companhia dos anjos e dos homens unidos em Deus (CIC 336).

A criação. Sol, lua, fogo, relâmpago, vento, mar, terra e rocha não são invocados como forças mágicas. São obras de Deus, e a oração as põe do lado de quem reza, como faz o Salmo 148, que chama o sol, a lua, o fogo e o vento a louvar o Criador.

Deus que conduz. O poder, a sabedoria, o olhar, o ouvido, a palavra, a mão, o caminho, o escudo e as hostes são todos “de Deus”. A estrofe mais longa da oração é uma lista do cuidado de Deus por quem se entrega a ele.

Contra os males. Aqui a oração nomeia o que ameaçava os cristãos da Irlanda antiga: falsos profetas, o paganismo, a heresia, a idolatria e as práticas mágicas. A linha “feitiços de mulheres, de ferreiros e de druidas” fala das pessoas a quem aquela sociedade atribuía poderes mágicos; não é uma frase contra as mulheres. O que a oração recusa é a magia, como a Igreja continua a recusar toda tentativa de dominar forças ocultas (CIC 2117). E repare no modo: quem reza não fala com nenhum espírito nem dá ordens a ninguém. Chama para perto de si as forças de Deus e pede a Cristo que o proteja.

“Cristo comigo”: o coração da Couraça

1 min de leituraNo meio da oração, a lista para e sobra um nome só: Cristo.

No meio da oração, a lista para e sobra um nome só: Cristo. À frente, atrás, dentro, abaixo, acima, à direita, à esquerda. E depois nas outras pessoas: no coração de quem pensa em mim, na boca de quem fala de mim, no olho de quem me vê. É a estrofe mais amada da Couraça, e muita gente a sabe de cor.

Essa estrofe muda o sentido da palavra “proteção”. Não se pede um muro entre mim e os outros; pede-se que Cristo esteja também neles. A pessoa difícil do trabalho, o desconhecido na rua, quem fala mal de mim: “Cristo na boca de todos os que falam de mim”.

Uma nota sobre as linhas do meio. Na versão de Kuno Meyer, seguida aqui e na maioria das traduções, a estrofe diz “Cristo quando me deito, Cristo quando me sento, Cristo quando me levanto”. As traduções literais do irlandês antigo trazem outra coisa, “Cristo na fortaleza, Cristo no assento do carro, Cristo na popa”, e o sentido exato dessas palavras ainda é discutido pelos estudiosos. As duas leituras apontam para o mesmo: em casa, na estrada ou no mar, Cristo está ali.

Uma oração a Deus, não um escudo mágico

1 min de leituraA Couraça pede proteção contra coisas muito concretas: veneno, fogo, afogamento, feridas.

A Couraça pede proteção contra coisas muito concretas: veneno, fogo, afogamento, feridas. Rezar por isso é bom e é cristão; Jesus nos ensinou a pedir “livrai-nos do mal”, e nesse pedido a Igreja leva a Deus toda a aflição do mundo (CIC 2854). Mas a oração não substitui o cuidado. Quem reza a Couraça antes de pegar a estrada continua usando o cinto de segurança.

Também não há número certo de vezes para rezá-la, nem papel que precise ser levado no bolso. O Catecismo chama de superstição atribuir a eficácia de uma oração só às palavras, independentemente das disposições do coração (CIC 2111). A força da Couraça, ela mesma diz, está em outro lugar: “por uma força poderosa, a invocação da Trindade”.

E a “recompensa em abundância” que a oração pede não é sorte nem sucesso. É a vida eterna, a recompensa prometida na ressurreição, que a terceira estrofe já tinha nomeado.

Como rezar a Couraça de São Patrício

2 min de leituraDe manhã.

De manhã. A Couraça é uma oração de começo de dia: “Eu me levanto hoje”. Reze-a ao acordar, depois do sinal da cruz, ou antes de sair de casa. Se o tempo for curto, reze só a estrofe “Cristo comigo”, devagar, uma linha por respiração.

Antes de um caminho ou de uma conversa difícil. Foi para isso que ela nasceu, segundo a tradição: para quem sai em direção a um perigo. Uma viagem, uma cirurgia, uma entrevista, uma visita que você teme.

Em família. A estrofe central é fácil de aprender de cor, e as crianças costumam gostar de apontar para a frente, para trás, para cima e para baixo enquanto a rezam.

No dia de São Patrício. Em 17 de março, a Couraça é um jeito bonito de celebrar o santo que levou a fé à Irlanda. Depois dela, você pode rezar esta oração:

Senhor Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, no começo deste dia eu me levanto na vossa força e não na minha. Revesti-me de Cristo, para que ele esteja comigo em tudo o que eu fizer, e esteja também em cada pessoa que eu encontrar. Livrai-me do mal e guardai o meu corpo e a minha alma. Pela intercessão de São Patrício, dai-me a coragem de levar a fé a quem ainda não vos conhece. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

Perguntas

O que é a Couraça de São Patrício?

É uma antiga oração irlandesa de proteção, do tipo chamado “lorica”, ou couraça. Quem a reza se põe sob a proteção da Trindade, dos mistérios de Cristo, dos anjos e dos santos, e pede que Cristo esteja com ele por todos os lados. A tradição a atribui a São Patrício.

Foi São Patrício quem escreveu a Couraça?

A tradição diz que sim, mas os estudiosos, pela forma da língua, datam o texto irlandês que chegou até nós por volta do começo do século VIII, cerca de duzentos anos depois do santo. Ela nasceu na Igreja da Irlanda que Patrício evangelizou.

Posso rezar a Couraça de São Patrício todo dia?

Pode. Ela foi feita para o começo do dia, e muitos cristãos a rezam toda manhã. Se o tempo for curto, reze a estrofe “Cristo comigo, Cristo à minha frente, Cristo atrás de mim”.

A Couraça de São Patrício é uma oração católica?

Sim. Ela vem da Igreja da Irlanda do primeiro milênio, é toda dirigida a Deus e centrada na Trindade e em Cristo, e não dá ordens a nenhum espírito. É uma oração que qualquer fiel pode rezar.

Por que existem versões diferentes da Couraça em português?

Porque o original é em irlandês antigo e cada versão portuguesa foi traduzida por uma pessoa diferente, muitas vezes a partir do inglês. A tradução desta página segue a versão de Kuno Meyer (1911), conferida com o texto irlandês.

Quando é o dia de São Patrício?

Em 17 de março. São Patrício é o padroeiro da Irlanda, e a data é festejada por irlandeses no mundo inteiro.