Salmo 139 — o Deus que me conhece e me formou

Salmo

Salmo 139: o Deus que me conhece

O salmo do Deus que nos conhece e nos formou no ventre, na tradução católica do Padre Figueiredo

O Salmo 139 — o 138 na numeração da Vulgata — é a oração de quem descobre que Deus o conhece por inteiro: os pensamentos, os caminhos, a noite mais escura e até o tempo em que ainda se formava no ventre da mãe.

1Para o fim, Salmo de Davi. Senhor, provaste-me, e conheceste-me.

2Tu me conheceste ao assentar-me, e ao levantar-me.

3De longe entendeste os meus pensamentos: a minha vereda, e o fio de meus passos investigaste.

4E previste todos os meus caminhos: ainda quando não está a palavra na minha língua.

5Eis aqui, Senhor, tu conheceste todas as coisas, as novíssimas, e as antigas: tu me formaste, e puseste sobre mim a tua mão.

6Maravilhosa se tem feito a tua ciência em mim, sublime é, e não poderei lá chegar.

7Como me irei do teu Espírito? e para onde fugirei da tua presença?

8Se subir ao céu, tu ali te achas: se descer ao inferno, presente nele estás.

9Se eu tomar as minhas asas ao romper da alva, e for habitar nas extremidades do mar:

10ainda lá me guiará a tua mão: e me susterá a tua direita.

11E disse: Talvez me ocultarão as trevas: mas a noite se converte em claridade para me descobrir entregue às minhas delícias.

12Porque as trevas não serão escuras para ti, e a noite será iluminada como o dia: como as trevas daquela, assim são também a luz deste.

13Porque tu possuíste os meus afetos: recebeste-me desde o ventre de minha mãe.

14Eu te glorificarei, porque assombrosamente tens sido engrandecido: maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o conhece muito.

15Nenhum dos meus ossos que formaste em secreto, te é a ti oculto: nem a minha substância nas entranhas da terra.

16Os teus olhos me viram, quando era informe, e no teu livro todos serão escritos: os dias serão formados, e ninguém neles.

17Mas para mim têm sido singularmente honrados os teus amigos, ó Deus: muito se tem fortificado o principado deles.

18Contá-los-ei, e mais que a areia se multiplicarão: despertei, e ainda estou contigo.

19Se matares, ó Deus, os pecadores: homens sanguinários, retirai-vos de mim.

20Porque dizeis no vosso pensamento: Tomarão em vão as tuas cidades.

21Porventura não aborrecia eu, Senhor, aos que te aborreceram: e não me consumia por causa dos teus inimigos?

22Com ódio consumado eu os aborrecia: e eles se tornaram meus inimigos.

23Prova-me, ó Deus, e sonda o meu coração: pergunta-me, e conhece as minhas veredas.

24E vê, se há em mim caminho de iniquidade: e conduze-me pelo caminho da eternidade.

Tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo (1725–1797), segundo a Vulgata latina, onde este é o Salmo 138. Ortografia atualizada; texto do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (domínio público).

Texto original (grafia de 1866)

1Para o fim, Salmo de David. Senhor, provaste-me, e conheceste-me.

2Tu me conheceste ao assentar-me, e ao levantar-me.

3De longe entendeste os meus pensamentos: a minha vareda, e o fio de meus passos investigaste.

4E previste todos os meus caminhos: ainda quando não está a palavra na minha lingua.

5Eis-aqui, Senhor, tu conheceste todas as cousas, as novissimas, e as antigas: tu me formaste, e puzeste sobre mim a tua mão.

6Maravilhosa se tem feito a tua sciencia em mim, sublime he, e não poderei lá chegar.

7Como me hirei do teu Espirito? e para onde fugirei da tua presença?

8Se subir ao ceo, tu alli te achas: se descer ao inferno, presente nelle estás.

9Se eu tomar as minhas azas ao romper da alva, e for habitar nas extremidades do mar:

10ainda lá me guiará a tua mão: e me susterá a tua direita.

11E disse: Talvez me occultarão as trévas: mas a noite se converte em claridade para me descobrir entregue ás minhas delicias.

12Porque as trévas não serão escuras para ti, e a noite será illuminada como o dia: como as trévas d'aquella, assim são tambem a luz d'este.

13Porque tu possuiste os meus affectos: recebeste-me des do ventre de minha mãi.

14Eu te glorificarei, porque assombrosamente tens sido engrandecido: maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o conhece muito.

15Nenhum dos meus ossos que formaste em secreto, te he a ti occulto: nem a minha substancia nas entranhas da terra.

16Os teus olhos me vîrão, quando era informe, e no teu livro todos serão escritos: os dias serão formados, e ninguem nelles.

17Mas para mim tem sido singularmente honrados os teus amigos, ó Deos: muito se tem fortificado o principado d'elles.

18Contallos-hei, e mais que a arêa se multiplicarão: despertei, e ainda estou comtigo.

19Se matares, ó Deos, os peccadores: homens sanguinarios, retirai-vos de mim.

20Porque dizeis no vosso pensamento: Tomarão em vão as tuas cidades.

21Por ventura não aborrecia eu, Senhor, aos que te aborrecêrão: e não me consumia por causa dos teus inimigos?

22Com odio consummado eu os aborrecia: e elles se tornárão meus inimigos.

23Prova-me, ó Deos, e sonda o meu coração: pergunta-me, e conhece as minhas varedas.

24E vê, se ha em mim caminho de iniquidade: e conduze-me pelo caminho da eternidade.

A Biblia Sagrada, traduzida em portuguez segundo a Vulgata Latina, por Antonio Pereira de Figueiredo. Londres: Harrison e Filhos, 1866, pp. 626–627 (Salmo CXXXVIII).

Paráfrase moderna

Paráfrase em português de hoje — escrita especialmente para esta página, para ajudar na leitura; não é uma tradução bíblica.

1Salmo de Davi. Tu me puseste à prova, Senhor, e sabes quem eu sou.

2Tu sabes a hora em que me sento e a hora em que me levanto.

3De longe já entendes o que eu penso; acompanhas a estrada que faço, passo por passo.

4Conheces cada rumo que vou tomar, antes mesmo de a palavra chegar à minha boca.

5Tu sabes tudo, Senhor, o que vem no fim e o que veio no começo; tu me deste forma e pousaste a tua mão sobre mim.

6O que sabes de mim é maravilhoso demais, alto demais: eu não consigo alcançar.

7Para onde eu iria, longe do teu Espírito? Para onde eu correria, longe do teu olhar?

8Se eu subo ao céu, lá te encontro; se desço à morada dos mortos, ali também estás.

9Se eu pegar as asas da madrugada e for morar do outro lado do mar,

10até lá a tua mão vai me conduzir, e a tua direita vai me segurar.

11Se eu pensar: “Pelo menos o escuro vai me esconder”, a própria noite se acende em claridade e me encontra no meio das minhas alegrias.

12Para ti o escuro não é escuro, e a noite brilha como o dia: treva e luz, diante de ti, valem o mesmo.

13Pois tu és dono do que eu sinto lá no fundo; tu me acolheste desde o ventre materno.

14Eu te dou glória, porque a tua grandeza me deixa sem palavras: as tuas obras são uma maravilha, e a minha alma sabe disso muito bem.

15Nenhum dos meus ossos, que formaste em segredo, ficou escondido de ti; nem o meu ser, quando tomava forma no fundo da terra.

16Os teus olhos já me viam quando eu ainda não tinha forma; tudo fica anotado no teu livro: cada dia meu foi desenhado quando nenhum deles tinha começado.

17Os teus amigos, ó Deus, são muito honrados aos meus olhos; a força deles cresceu muito.

18Se eu tentar contá-los, passam da conta da areia. Eu acordo, e continuo contigo.

19Ó Deus, se acabares com os que fazem o mal… Gente violenta, saiam de perto de mim!

20Vocês dizem por dentro: “Vamos tomar as tuas cidades” — mas é tudo em vão.

21Senhor, como eu não odiaria quem te odeia? Como não sofreria por causa de quem se revolta contra ti?

22Com um ódio completo eu os odeio: eles viraram meus inimigos também.

23Põe-me à prova, ó Deus, e examina o meu coração; faz-me perguntas e descobre por onde eu ando.

24Olha se eu sigo por alguma trilha de maldade, e conduz-me pela estrada que não acaba.

Na tradução católica do Padre Figueiredo, ele começa assim: “Senhor, provaste-me, e conheceste-me.” A Igreja o reza nas Vésperas da quarta-feira da quarta semana do Saltério e na solenidade do nascimento de São João Batista, em 24 de junho. Aqui no AngelGuard você lê o salmo completo, entende cada parte e aprende a rezá-lo.

Aprofundar

Significado do Salmo 139, verso a verso

4 min de leituraO Salmo 139 é uma conversa a sós com Deus, sem pressa e sem plateia.

O Salmo 139 é uma conversa a sós com Deus, sem pressa e sem plateia. Bento XVI o chamou de “um hino sapiencial de límpida beleza” e o leu em duas etapas: primeiro o Deus que tudo conhece e está em toda parte (versos 1–12), depois o ser humano formado por ele desde o ventre (versos 13–18 e 23–24). Os números de verso aqui são os do Padre Figueiredo, que segue a Vulgata e conta o título no verso 1.

Versos 1–6: conhecido por dentro. “Tu me conheceste ao assentar-me, e ao levantar-me.” Sentar e levantar é o dia inteiro, do primeiro ao último gesto. Deus conhece os pensamentos “de longe” e a palavra antes que ela chegue à língua (v. 4). Para a Bíblia, conhecer não é só ter informação: Bento XVI explica que é “uma espécie de comunhão entre conhecedor e conhecido”. Por isso o salmista termina admirado, e não assustado: “sublime é, e não poderei lá chegar” (v. 6).

Versos 7–12: não há para onde fugir. “Como me irei do teu Espírito? e para onde fugirei da tua presença?” O salmista percorre o mundo inteiro: para cima, o céu; para baixo, o “inferno”, que aqui quer dizer a morada dos mortos, o Sheol da Bíblia hebraica (CIC 633); para o nascente, “as minhas asas ao romper da alva”; e para o poente, “as extremidades do mar”. Bento XVI lembra que, para quem vivia em Israel, a alva era o oriente e o mar era o Mediterrâneo, o ocidente. Em todo lugar a resposta é a mesma: “ainda lá me guiará a tua mão” (v. 10). Nem a noite esconde, porque “as trevas não serão escuras para ti” (v. 12). O que poderia soar como vigilância vira consolo: é, nas palavras de Bento XVI, “uma proximidade não de julgamento que incute terror, mas de apoio e de libertação”.

Versos 13–18: formado por Deus. “Recebeste-me desde o ventre de minha mãe” (v. 13). Onde Figueiredo escreve “afetos”, o latim diz “rins”, que na Bíblia aparecem ao lado do coração para falar do mais íntimo da pessoa (Jr 17,10; e Sl 26,2, que na Vulgata é o 25,2: “abrasa os meus rins e meu coração”). Os ossos formados “em secreto” e “as entranhas da terra” (v. 15) são imagens do ventre materno, e o “informe” do verso 16 é a vida que ainda não tem forma, mas já está diante dos olhos de Deus. Nos versos 17–18, a Vulgata fala dos “amigos” de Deus; as Bíblias traduzidas do hebraico falam dos pensamentos de Deus, mais numerosos que a areia. E o salmista acorda e descobre que continua com Deus: “despertei, e ainda estou contigo”.

Versos 19–22: a revolta contra o mal. De repente o tom muda: o salmista pede que Deus acabe com os pecadores e diz “Com ódio consumado eu os aborrecia”. É o grito de alguém que não aceita a violência dos “homens sanguinários” e toma o partido de Deus. O cristão reza esses versos à luz de Jesus, que mandou amar os inimigos (Mt 5,44). Santo Agostinho, comentando este salmo, explicou o “ódio consumado” assim: “odiava neles as suas iniquidades, amava a tua criatura”. O que se rejeita por inteiro é o mal, não a pessoa. Na Liturgia das Horas, a Igreja deixa esses quatro versos de fora; a explicação está mais adiante.

Versos 23–24: “Prova-me, ó Deus”. O salmo termina onde começou, mas agora como pedido. O que no verso 1 era constatação (“provaste-me, e conheceste-me”) vira convite: “Prova-me, ó Deus, e sonda o meu coração”. Quem descobriu que é conhecido por inteiro não precisa mais se esconder; pode pedir que Deus olhe tudo e o leve “pelo caminho da eternidade”.

Senhor, tu me conheces melhor do que eu mesmo: acompanhas cada passo meu, do levantar ao deitar, e nenhum caminho meu fica longe de ti. Tira de mim o medo de ser visto por ti. Onde eu for, guia-me com a tua mão; quando a noite chegar, sê tu a minha luz. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

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Salmo 139 e a vida no ventre: “Os teus olhos me viram, quando era informe”

3 min de leituraPoucos textos da Bíblia falam com tanta delicadeza do começo da vida.

Poucos textos da Bíblia falam com tanta delicadeza do começo da vida. Três versos deste salmo tocam nisso: “recebeste-me desde o ventre de minha mãe” (v. 13), “Nenhum dos meus ossos que formaste em secreto, te é a ti oculto” (v. 15) e “Os teus olhos me viram, quando era informe” (v. 16).

Bento XVI comentou esta parte do salmo no dia 28 de dezembro de 2005, festa dos Santos Inocentes. Ele lembrou que a palavra hebraica do verso 16 é entendida por alguns estudiosos como o “embrião”, sobre o qual já pousa o olhar amoroso de Deus, e chamou estes versos de “um elogio bíblico do ser humano, desde o primeiro momento da sua existência”. O Catecismo cita o verso 15 ao ensinar que a vida humana deve ser respeitada e protegida desde o momento da concepção (CIC 2270), e diz de cada pessoa que ela “não é somente alguma coisa, mas alguém” (CIC 357).

Para quem espera um filho. O salmo é uma bela oração para a gravidez: o pai e a mãe ainda não conhecem o rosto do bebê, mas Deus já o conhece. A mãe pode rezar os versos 13 a 16 com a mão sobre a barriga, entregando a Deus aquela vida pequena que ele está formando em segredo.

Para quem perdeu um filho na gestação. O verso 16 diz que os olhos de Deus viram aquela vida, por mais breve que tenha sido. Ela não passou despercebida. A Igreja confia à misericórdia de Deus as crianças que morrem sem o Batismo, como faz no rito do seu funeral, e nos permite esperar que haja um caminho de salvação para elas (CIC 1261). A paróquia pode ajudar nessa despedida: a Igreja tem orações próprias para esses filhos. Rezar este salmo pode ser um modo de entregar esse filho a Deus com nome e com amor.

Para quem ouviu que “não foi planejado”. Há quem cresça carregando essa frase. O salmo diz outra coisa: antes de qualquer plano humano, foi Deus quem formou e conheceu você. O Catecismo ensina que toda vida humana, desde a concepção, é sagrada, porque a pessoa humana foi querida por si mesma (CIC 2319).

Deus da vida, tu formas em segredo cada criança no ventre da mãe e já a conheces antes que alguém a veja. Eu te entrego esta vida que está crescendo: guarda a mãe e o bebê, dá saúde e paz a esta família, e faz que esta criança nasça amada e cresça sabendo que foi querida por ti. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

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Quando rezar o Salmo 139

2 min de leituraNo trabalho ninguém repara, em casa ninguém pergunta, e parece que tanto faz você existir.

Quando você se sente invisível. No trabalho ninguém repara, em casa ninguém pergunta, e parece que tanto faz você existir. O salmo responde que há alguém que sabe até quando você se senta e se levanta.

Quando você tem vergonha de ser visto. Para quem carrega culpa, saber que Deus vê tudo pode dar medo. Leia devagar os versos 7 a 12: o olhar de Deus não é de fiscal, é de quem guia pela mão. O salmo não pede que você se esconda melhor; pede que você deixe de se esconder.

À noite e nos dias escuros. “As trevas não serão escuras para ti” (v. 12). Bento XVI resumiu assim a mensagem do salmo: “Também nas noites mais obscuras da nossa vida, não nos abandona.” É um bom salmo para a insônia, para a véspera de uma notícia difícil, para a tristeza que não passa.

Longe de casa. “Se eu tomar as minhas asas ao romper da alva, e for habitar nas extremidades do mar” (v. 9): poucas palavras da Bíblia servem tão bem a quem mudou de cidade ou de país. Até lá, a mão de Deus guia.

Antes de se confessar. Os versos 23 e 24 são um ótimo começo para o exame de consciência: pedir que Deus sonde o coração e mostre o que precisa mudar.

Na gravidez e no aniversário. O salmo agradece pela própria vida: “maravilhosas são as tuas obras” (v. 14). Rezá-lo no dia do aniversário, seu ou de um filho, é um jeito simples de dizer obrigado por existir.

Senhor, quando eu me sentir esquecido, lembra-me de que tu me conheces; quando eu quiser me esconder, dá-me coragem de ficar diante de ti. Prova-me e sonda o meu coração, mostra-me o que precisa mudar e leva-me pelo caminho que não termina. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

Como a Igreja reza o Salmo 139: Vésperas, São João Batista e leitura orante

2 min de leituraNa Liturgia das Horas, o Salmo 139 (138 nos livros litúrgicos) é rezado nas Vésperas da quarta-feira da quarta semana do Saltério, em duas partes.

Nas Vésperas. Na Liturgia das Horas, o Salmo 139 (138 nos livros litúrgicos) é rezado nas Vésperas da quarta-feira da quarta semana do Saltério, em duas partes. Bento XVI dedicou a ele duas catequeses nas audiências de 14 e de 28 de dezembro de 2005, dentro da série sobre os salmos das Vésperas.

Por que faltam alguns versos. Na Liturgia das Horas, o salmo vai dos versos 1 a 18 e depois salta para os versos 23 e 24. A Instrução Geral da Liturgia das Horas explica que alguns versos de imprecação foram omitidos por causa de uma certa dificuldade psicológica, e lembra que o próprio Novo Testamento usa esse tipo de súplica como oração (n. 131; cf. Ap 6,10). Rezar o salmo inteiro, em casa, continua sendo bom.

No nascimento de São João Batista. No dia 24 de junho, na Missa da solenidade, a Igreja canta este salmo depois da leitura de Isaías sobre o servo que o Senhor chamou desde o ventre materno (Is 49,1-6), e o Evangelho conta o nascimento de João (Lc 1,57-66.80). É o salmo da vida formada no ventre na festa daquele que estremeceu de alegria no seio de Isabel quando Maria chegou (Lc 1,41.44).

Em leitura orante. 1. Leia o salmo inteiro devagar. 2. Medite: escolha um verso, talvez “tu me formaste, e puseste sobre mim a tua mão” (v. 5), e pergunte o que Deus lhe diz com ele hoje. 3. Reze: responda com as suas palavras, contando a Deus o que você sente ao saber que ele o conhece. 4. Contemple: fique alguns minutos em silêncio, apenas deixando-se olhar.

Uma frase para o dia. “Prova-me, ó Deus, e sonda o meu coração” (v. 23) cabe numa respiração. Repeti-la no ônibus, na fila ou antes de dormir mantém o coração aberto diante de Deus ao longo do dia.

Deus, que chamaste João Batista desde o ventre de Isabel para preparar o caminho do teu Filho, ensina-me a reconhecer que também a minha vida começou nas tuas mãos. Que eu reze com a tua Igreja, de manhã e à tarde, e aprenda a viver diante do teu olhar. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

O Salmo 139 e Jesus

2 min de leituraOs Evangelhos mostram Jesus conhecendo as pessoas como este salmo diz que Deus conhece.

O Jesus que conhece por dentro. Os Evangelhos mostram Jesus conhecendo as pessoas como este salmo diz que Deus conhece. Ele sabia o que havia no coração de cada um (Jo 2,24-25); viu Natanael debaixo da figueira antes mesmo do chamado de Filipe (Jo 1,47-48); e Pedro, depois de tê-lo negado três vezes, só soube responder que Jesus conhecia tudo, até o amor que ele ainda lhe tinha (Jo 21,17). Ser conhecido por Jesus não é ser desmascarado; é ser amado com verdade.

O Filho formado no ventre. Bento XVI notou como este salmo combina com o tempo do Natal, quando celebramos o Filho de Deus que se fez homem e se fez Menino. Aquele que forma cada pessoa no ventre da mãe quis ele mesmo ser formado no ventre de Maria (Lc 1,31; Gl 4,4).

“Despertei, e ainda estou contigo”. A Missa do Domingo de Páscoa começa com o canto de entrada Resurrexi, et adhuc tecum sum, “ressuscitei, e ainda estou contigo”. Bento XVI explicou, na mensagem de Páscoa de 2008, que essas palavras vêm de uma antiga versão do verso 18 deste salmo, e que nelas “a Igreja reconhece a própria voz de Jesus” ressuscitado, falando ao Pai. Na mesma mensagem, ele lê à luz da Páscoa os versos 8 e 12: Cristo desceu à morada dos mortos (CIC 633), e na noite da Vigília Pascal as trevas se tornam luz.

Nada nos separa. O que o salmo diz do espaço (céu, abismo, mar, noite), São Paulo diz de tudo o que existe: nada, nem morrer nem viver, nem este tempo nem o que vier depois, consegue nos afastar do amor que Deus nos mostrou em Cristo (Rm 8,38-39).

Senhor Jesus, tu conheces o meu coração como conheceste o de Pedro, e mesmo assim me chamas. Tu que desceste à morada dos mortos e ressuscitaste, fica comigo quando eu acordar e quando eu adormecer, e faz que eu possa dizer ao Pai, contigo: ainda estou contigo. Amém.

Salmo 139 ou 138? A numeração e a tradução desta página

2 min de leituraA Bíblia hebraica, seguida pela maioria das Bíblias atuais e pelas buscas na internet, chama este salmo de 139.

Dois números, o mesmo salmo. A Bíblia hebraica, seguida pela maioria das Bíblias atuais e pelas buscas na internet, chama este salmo de 139. A antiga tradução grega e a Vulgata latina chamam de 138, porque nelas os Salmos 9 e 10 contam como um só. O Padre Figueiredo traduziu da Vulgata, e os livros litúrgicos usam a mesma numeração; por isso você vai encontrar “Salmo 138” ou “Salmo 138(139)” na Liturgia das Horas e no Lecionário. Aqui, os versos têm o mesmo número nas duas contagens: o verso do ventre é o 13 em todas elas.

Algumas diferenças de tradução. Figueiredo traduz do latim, e não do hebraico. Por isso o salmo começa com “provaste-me”, onde outras Bíblias usam o verbo sondar; o título diz “Para o fim”, que é como a Vulgata traduz uma indicação para o mestre de canto; e os versos 17 e 18 falam dos “amigos” de Deus, onde as Bíblias traduzidas do hebraico falam dos pensamentos de Deus. São leituras antigas e legítimas do mesmo texto sagrado.

A tradução que você lê aqui. O texto é o do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, sacerdote português do século XVIII que traduziu a Bíblia inteira a partir da Vulgata latina. Nesta página o texto está em ortografia atualizada, com algumas palavras antigas trocadas pela forma atual, sem mudar o sentido; junto ao salmo, no início da página, você encontra também a grafia original da edição de 1866 (“Deos”, “hirei”, “Contallos-hei”…). No livro, este é o Salmo CXXXVIII.

Perguntas

O que diz o Salmo 139?

O Salmo 139 diz que Deus conhece cada pessoa por inteiro: os pensamentos, as palavras antes de serem ditas, os caminhos e até o tempo em que ela ainda se formava no ventre da mãe. Diz também que não há lugar onde se possa fugir de Deus, nem o céu, nem a morada dos mortos, nem a noite. E termina com um pedido: “Prova-me, ó Deus, e sonda o meu coração”. O texto completo, na tradução católica do Padre Figueiredo, está no início desta página.

Para que serve o Salmo 139?

Serve para rezar diante de Deus sem máscaras: quando você se sente invisível, quando tem vergonha de ser visto, na escuridão, longe de casa, antes de se confessar ou à espera de um filho. Ele não é uma fórmula que produz um resultado; é uma oração que leva a confiar em quem conhece e ama você por inteiro.

Qual é a oração do Salmo 139?

O próprio salmo é a oração: lê-lo devagar, falando com Deus, já é rezar. Se você quiser algo mais curto, comece pelo fim, “Prova-me, ó Deus, e sonda o meu coração” (v. 23), e continue com as suas palavras, contando a Deus o que você quer que ele veja. Pode ser simples: “Senhor, tu me conheces melhor do que eu; olha o meu coração e leva-me pelo teu caminho.” Não precisa de fórmula nem de número de dias.

Qual versículo do Salmo 139 fala do ventre?

O versículo 13: “recebeste-me desde o ventre de minha mãe”, na tradução do Padre Figueiredo. Os versículos 15 e 16 continuam o tema: os ossos formados “em secreto” e “Os teus olhos me viram, quando era informe”. O Catecismo cita o versículo 15 ao ensinar que a vida humana deve ser protegida desde a concepção (CIC 2270).

O que acontece se eu ler o Salmo 139 durante 21 dias?

Contar os dias, por si só, não garante nada. A proposta dos 21 dias circula em vídeos e redes sociais, mas a força da oração não está no número de repetições: o Catecismo chama de superstição atribuir a eficácia de uma oração só às palavras ditas, sem as disposições do coração (CIC 2111). Se rezar o salmo todos os dias, por 21 dias ou mais, ajudar você a criar o hábito de conversar com Deus, é um ótimo caminho. O que muda é a sua relação com Deus; não há um resultado prometido para o 21º dia.

Por que algumas Bíblias chamam de Salmo 138?

Existem duas numerações dos Salmos. A hebraica, usada na maioria das Bíblias atuais, chama este salmo de 139. A grega e latina, seguida pela tradução do Padre Figueiredo e pelos livros litúrgicos, chama de 138, porque nela os Salmos 9 e 10 contam como um só. É o mesmo salmo; muitas edições trazem “Salmo 138(139)”. Se a sua Bíblia é a Ave-Maria, que usa a numeração antiga, procure o Salmo 138: lá, o “Salmo 139” é outro salmo, uma súplica contra os violentos.

Por que o Salmo 139 fala em ódio aos inimigos?

Nos versos 19 a 22 o salmista se revolta contra os “homens sanguinários” e diz que os aborrece com “ódio consumado”. É o grito de quem toma o partido de Deus contra a violência. O cristão reza esses versos à luz de Jesus, que mandou amar os inimigos (Mt 5,44): rejeita por inteiro o mal, não a pessoa. Na Liturgia das Horas a Igreja os deixa de fora, por uma dificuldade psicológica que reconhece abertamente.