Salmo 23 — o salmo do Bom Pastor

Salmo

Salmo 23: o Senhor é meu pastor

O salmo do Bom Pastor, na tradução católica do Padre Figueiredo

O Salmo 23, conhecido como “o Senhor é meu pastor”, é a oração de confiança de quem se sabe guiado por Deus em tudo: pastos, caminhos, a sombra da morte e a mesa preparada. Na tradução católica do Padre Figueiredo ele começa assim: “O Senhor me governa, e nada me faltará.” Aqui no AngelGuard você lê o salmo completo, entende cada verso e aprende a rezá-lo à luz de Jesus, o Bom Pastor.

1Salmo de Davi. O Senhor me governa, e nada me faltará:

2em um lugar de pastos ali me colocou. Ele me conduziu junto a uma água de refeição:

3converteu a minha alma. Levou-me por veredas de justiça, por amor do seu nome.

4Pois ainda quando andar no meio da sombra da morte, não temerei males: porquanto tu estás comigo. A tua vara, e o teu báculo, eles me consolaram.

5Preparaste uma mesa diante de mim, à vista daqueles, que me angustiavam. Ungiste com o óleo pingue a minha cabeça: e o meu cálix que embriaga quão precioso é!

6E a tua misericórdia irá após de mim todos os dias da minha vida. E a fim de que eu habite na casa do Senhor, por diuturnidade de dias.

Tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo (1725–1797), segundo a Vulgata latina, onde este é o Salmo 22. Ortografia atualizada; texto do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (domínio público).

Texto original (grafia de 1866)

1Salmo de David. O Senhor me governa, e nada me faltará:

2em hum lugar de pastos alli me collocou. Elle me conduzio junto a huma agua de refeição:

3converteo a minha alma. Levou-me por varedas de justiça, por amor do seu nome.

4Pois ainda quando andar no meio da sombra da morte, não temerei males: por quanto tu estás comigo. A tua vara, e o teu baculo, elles me consolárão.

5Preparaste huma meza diante de mim, á vista d'aquelles, que me angustiavão. Ungiste com o oleo pingue a minha cabeça: e o meu calis que embriaga quam precioso he!

6E a tua misericordia irá após de mim todos os dias da minha vida. E a fim de que eu habite na casa do Senhor, por diuturnidade de dias.

A Biblia Sagrada, traduzida em portuguez segundo a Vulgata Latina, por Antonio Pereira de Figueiredo. Londres: Harrison e Filhos, 1866, p. 565 (Salmo XXII).

Paráfrase moderna

Paráfrase em português de hoje — escrita especialmente para esta página, para ajudar na leitura; não é uma tradução bíblica.

1Salmo de Davi. O Senhor cuida de mim e me conduz como um pastor; nada vai me faltar.

2Ele me deixou descansar num lugar de bons pastos e me levou até a água que renova as forças.

3Ele trouxe a minha alma de volta. Guiou-me pelos caminhos certos, por causa do seu nome.

4Mesmo que eu caminhe no meio da sombra da morte, não terei medo de mal nenhum, porque tu estás comigo. A tua vara e o teu cajado me dão consolo.

5Tu preparaste uma mesa para mim, bem diante dos que me afligiam. Ungiste a minha cabeça com óleo farto, e o meu cálice me enche de alegria — como é precioso!

6A tua misericórdia vai me acompanhar todos os dias da minha vida, para que eu more na casa do Senhor por muitos e muitos dias.

Aprofundar

Significado do Salmo 23, verso a verso

3 min de leitura“O Senhor me governa, e nada me faltará.”

“O Senhor me governa, e nada me faltará.” Quem conhece o salmo como “o Senhor é meu pastor” estranha a tradução do Padre Figueiredo. A diferença vem do latim: a Vulgata diz Dominus regit me, “o Senhor me rege, me governa”, e o Padre Figueiredo traduziu a Vulgata. No hebraico, o texto diz “o Senhor é meu pastor”. As duas leituras se completam: o pastor de Israel não é um dono distante, é aquele que governa cuidando, que conduz porque ama. E a consequência é a frase mais conhecida do salmo: “nada me faltará”.

Versos 2–3: pastos, água, caminho. O pastor leva a ovelha a “um lugar de pastos” e “junto a uma água de refeição” — água que refaz, que devolve as forças. Depois, “converteu a minha alma”: traz de volta a alma cansada ou desviada. E guia “por veredas de justiça, por amor do seu nome”. Deus não conduz por causa dos nossos méritos, mas porque é fiel a si mesmo.

Verso 4: a sombra da morte. É o centro do salmo, e ali a linguagem muda: até aqui se falava do Senhor (“Ele me conduziu”); agora se fala com ele: “porquanto tu estás comigo”. No vale escuro — o hebraico fala de um vale; a Vulgata, de “sombra da morte” —, Deus deixa de ser assunto e passa a ser companhia. A “vara” e o “báculo” eram os instrumentos do pastor: um para defender o rebanho, o outro para guiar e apoiar. Não afastam a escuridão, mas dão consolo dentro dela.

Verso 5: a mesa e o cálice. A imagem passa do pastor ao anfitrião. Deus prepara “uma mesa diante de mim, à vista daqueles, que me angustiavam”: a honra é dada no meio da hostilidade, não depois dela. A cabeça ungida com “óleo pingue” (óleo abundante) era sinal de hóspede honrado e de alegria. E o “cálix que embriaga” — expressão da Vulgata, calix inebrians — fala de uma alegria que transborda. Os Padres da Igreja leram o salmo como figura do Batismo (a água), da Crisma (a unção) e da Eucaristia (a mesa e o cálice).

Verso 6: a misericórdia que persegue. “E a tua misericórdia irá após de mim todos os dias da minha vida.” Não é o fiel que corre atrás da misericórdia; é a misericórdia que vai atrás dele. O salmo termina com o desejo de morar “na casa do Senhor, por diuturnidade de dias” — por muitos e muitos dias, e para o cristão, para sempre.

Senhor, meu pastor, tu conheces o caminho que eu não vejo. Conduz-me aos teus pastos, traz de volta a minha alma quando ela se desviar e, quando eu tiver de atravessar a sombra, lembra-me de que tu estás comigo. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

Jesus, o Bom Pastor que cumpre o Salmo 23

2 min de leituraSéculos depois de Davi, Jesus disse de si mesmo: “Eu sou o bom Pastor. O bom pastor dá a própria vida pelas suas ovelhas” (Jo 10,11).

Séculos depois de Davi, Jesus disse de si mesmo: “Eu sou o bom Pastor. O bom pastor dá a própria vida pelas suas ovelhas” (Jo 10,11). Quem reza o Salmo 23 como cristão reza a um pastor que tem rosto: o Filho de Deus, que conhece as ovelhas pelo nome, vai atrás da que se perdeu e dá a vida por ela.

O Catecismo usa a mesma imagem para falar da Igreja: ela é o rebanho do qual o próprio Deus anunciou que seria o pastor, e cujas ovelhas, mesmo guiadas por pastores humanos, são continuamente conduzidas e alimentadas por Cristo, o Bom Pastor (CCC 754). Por isso, na Igreja, o Salmo 23 nunca é só uma oração individual: é a oração de um povo que caminha junto, atrás do mesmo Pastor.

O Papa Bento XVI dedicou a este salmo uma catequese na audiência geral de 5 de outubro de 2011. Ele o apresentou como um ato de confiança radical em Deus e mostrou que as imagens do pastor e do banquete encontram em Jesus o seu pleno cumprimento — inclusive a mesa, que ele relacionou à Eucaristia.

Senhor Jesus, Bom Pastor, que deste a vida pelas tuas ovelhas, procura-me quando eu me perder e não me deixes longe do teu rebanho. Faz-me ouvir a tua voz e seguir-te todos os dias da minha vida. Tu que vives e reinas pelos séculos dos séculos. Amém.

Quando rezar o Salmo 23

2 min de leituraNo luto.

No luto. O verso 4 fez deste salmo um companheiro das despedidas. A Igreja o inclui entre os salmos propostos para a Missa de Finados, e muitas famílias o rezam junto ao leito de quem está partindo ou no velório. Rezar “não temerei males: porquanto tu estás comigo” diante da morte é um ato de fé na ressurreição.

Em tempos de ansiedade e de falta. Desemprego, dívidas, incerteza sobre o futuro: “nada me faltará” não é promessa de riqueza, mas certeza de que o essencial não nos será tirado. O Catecismo, ao comentar o pedido do pão de cada dia, cita São Cipriano: a quem possui Deus nada falta, desde que ele mesmo não falte a Deus (CCC 2830).

Na doença. O “óleo pingue” do verso 5 lembra a Unção dos Enfermos, que expressa cura e conforto (CCC 1294). É um bom salmo para rezar com um doente ou por ele. Em caso de doença grave, não deixe de chamar o padre para a Unção dos Enfermos.

Antes de comungar ou depois da Comunhão. A “mesa” preparada e o “cálix” precioso fizeram dele, desde os primeiros séculos, um salmo eucarístico.

À noite ou num momento de silêncio. É curto o bastante para ser rezado de cor. Muitos o aprendem de memória e o repetem quando não conseguem dormir.

Pai, tu conheces aquilo que me falta e aquilo de que eu realmente preciso. Livra-me da ansiedade que rouba a paz e ensina-me a confiar que, contigo, o essencial nunca vai faltar. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

O que a Igreja ensina sobre o Salmo 23

2 min de leituraOs salmos são a Palavra que se torna oração.

Os salmos são a Palavra que se torna oração. O Catecismo ensina que o Saltério é o livro em que a Palavra de Deus se torna oração do homem (CCC 2587) e que os salmos, rezados por Cristo e nele cumpridos, continuam essenciais para a oração da Igreja (CCC 2586). Um salmo pode nascer de uma experiência antiga e, ainda assim, ser rezado com verdade por pessoas de todos os tempos (CCC 2588).

A providência cuida do concreto. Jesus pede um abandono de filho à providência do Pai, que cuida até das menores necessidades (CCC 305). Esse é o “nada me faltará” vivido no Evangelho.

A unção tem sentido. Na Bíblia, o óleo é sinal de abundância e de alegria, de purificação, de cura e de beleza (CCC 1293), e na vida sacramental a unção significa fortalecimento, cura e consagração (CCC 1294). O verso 5 ganha, assim, uma profundidade que o salmista só podia intuir.

A morte não é o fim do caminho. A Igreja nos convida a nos preparar para a hora da morte (CCC 1014) e a vê, para quem está unido a Cristo, como passagem para a vida eterna (CCC 1020). O vale escuro do verso 4 é atravessado, não habitado para sempre: o caminho termina na casa do Senhor.

Deus de misericórdia, que me acompanhas todos os dias da minha vida, dá-me a graça de viver e de morrer confiando em ti. Quando chegar a minha hora, recebe-me na tua casa, onde não haverá mais sombra nem medo. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

Como rezar o Salmo 23: liturgia e leitura orante

2 min de leituraNa Missa.

Na Missa. O Salmo 23 é um dos salmos responsoriais mais frequentes do Lecionário. Ele aparece, entre outros dias, no 4º domingo da Páscoa do Ano A (o domingo do Bom Pastor), no 4º domingo da Quaresma do Ano A, no 16º domingo do Tempo Comum do Ano B, no 28º domingo do Tempo Comum do Ano A, na solenidade de Cristo Rei do Ano A, na solenidade do Sagrado Coração de Jesus do Ano C e, entre os salmos que se podem escolher, na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos (Finados).

Na Liturgia das Horas. Nos livros litúrgicos ele aparece como Salmo 22, segundo a numeração latina, e é rezado na Hora Média dos domingos da II e da IV semana do Saltério.

Em leitura orante. 1. Leia o salmo inteiro devagar, duas vezes. 2. Medite: em que ponto do caminho você está hoje — nos pastos, no caminho, no vale escuro ou à mesa? 3. Reze: fale com Deus a partir desse lugar, com as suas palavras. 4. Contemple: repita em silêncio uma só frase, como “tu estás comigo”, até que ela fique no coração.

Em família. Por ser curto, o Salmo 23 é ótimo para ensinar às crianças. Uma sugestão: rezá-lo juntos à noite, cada um dizendo um verso.

Senhor, que eu não apenas repita estas palavras, mas as viva. Onde quer que eu esteja hoje no caminho, faz-me reconhecer a tua presença e confiar no teu cuidado. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

O Salmo 23 na história da Igreja

1 min de leituraO salmo dos recém-batizados.

O salmo dos recém-batizados. Nos primeiros séculos, muitos adultos eram batizados na Vigília Pascal e, nos dias seguintes, recebiam explicações sobre os sacramentos. Santo Ambrósio de Milão (século IV), no seu tratado Sobre os Mistérios (n. 43), aplica este salmo aos recém-batizados que se aproximam do altar pela primeira vez. São Cirilo de Jerusalém, nas Catequeses Mistagógicas (IV, 7), lê a mesa preparada como a mesa eucarística, a unção como o selo de Deus e o cálice como o sangue de Cristo. Para eles, o Salmo 23 descrevia exatamente o que os neófitos tinham vivido: foram conduzidos à água, ungidos e sentados à mesa do Senhor.

A tradução desta página. O texto é o do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, sacerdote português do século XVIII que traduziu a Bíblia inteira a partir da Vulgata latina. Nesta página o texto está em grafia atualizada, sem mudar as palavras; logo abaixo você encontra também a grafia original da edição de 1866 (“hum”, “he”, “calis”, “baculo”…). No livro, o salmo aparece como Salmo XXII. A expressão “O Senhor me governa” é própria dessa tradição latina, que por muito tempo foi a das Bíblias católicas em português.

Perguntas

Qual é o Salmo 23 completo?

O Salmo 23 tem 6 versos. Na tradução católica do Padre Figueiredo ele começa com “O Senhor me governa, e nada me faltará” e termina com “E a fim de que eu habite na casa do Senhor, por diuturnidade de dias.” O texto completo está no início desta página, seguido de uma paráfrase em português de hoje.

Por que aqui está escrito “o Senhor me governa” e não “o Senhor é meu pastor”?

Porque esta tradução foi feita a partir da Vulgata latina, que diz “Dominus regit me”, o Senhor me governa. As Bíblias traduzidas do hebraico dizem “o Senhor é meu pastor”. As duas leituras se completam: Deus governa como um pastor que cuida das ovelhas.

Para que serve o Salmo 23?

O Salmo 23 serve para rezar a confiança em Deus em todas as fases da vida: na necessidade, na ansiedade, na doença, no luto e na alegria. É uma oração para lembrar que Deus caminha conosco, especialmente no vale da sombra da morte, e para agradecer a mesa e a misericórdia que ele nos dá.

Posso rezar o Salmo 23 por quem faleceu?

Sim. A Igreja inclui o Salmo 23 entre os salmos propostos para a Missa de Finados, e ele é muito rezado em velórios e sepultamentos. Rezá-lo por um falecido é entregar essa pessoa ao Bom Pastor, pedindo que ela more na casa do Senhor para sempre.

Por que algumas Bíblias chamam de Salmo 22?

Existem duas numerações dos Salmos. A hebraica, usada na maioria das Bíblias modernas, chama este salmo de 23. A grega e latina, seguida pela tradução do Padre Figueiredo, por várias Bíblias católicas e pelos livros litúrgicos, chama de 22, porque nela os Salmos 9 e 10 contam como um só. É o mesmo salmo.