
Salmo
Salmo 35: pedir justiça a Deus sem odiar
O salmo do inocente que pede justiça a Deus, na tradução católica do Padre Figueiredo
O Salmo 35 — o 34 na numeração da Vulgata — é o clamor de um inocente caluniado e traído, que pede a Deus que seja o seu juiz e o seu defensor: “Julga, Senhor, aos que me fazem dano, expugna aos que me combatem.”
1Do mesmo Davi. Julga, Senhor, aos que me fazem dano, expugna aos que me combatem.
2Toma as tuas armas e o teu escudo: e levanta-te em meu socorro.
3Tira da espada, e conclui contra aqueles que me perseguem: dize à minha alma: Eu sou a tua salvação.
4Sejam confundidos e envergonhados, os que buscam a minha alma. Voltem atrás, e sejam confundidos os que meditam males contra mim.
5Sejam feitos como o pó ante a face do vento: e o anjo do Senhor os coarcte.
6Torne-se o seu caminho em trevas e escorregadio: e o anjo do Senhor os persiga.
7Porquanto sem razão me esconderam o seu laço de morte: sem causa encheram de opróbrios a minha alma.
8Venha sobre ele um laço que ignora: e a rede que escondeu o prenda a ele: e caia no mesmo laço que ele armou.
9Mas a minha alma regozijar-se-á no Senhor: e deleitar-se-á em seu Salvador.
10Todos os meus ossos dirão: Senhor, quem é semelhante a ti? Que livras ao desvalido das mãos dos mais fortes que ele: ao necessitado e ao pobre dos que o roubam.
11Levantando-se testemunhos iníquos, coisas que não sabia me perguntavam.
12Tornavam-me a mim males por bens: esterilidade à minha alma.
13Porém eu quando me eram molestos, me vestia de cilício. Humilhava a minha alma com o jejum: e a minha oração dava voltas no meu seio.
14Como a próximo, e como a irmão nosso assim lhe comprazia: como um que traz luto e está em tristeza assim me humilhava.
15E se alegraram, e contra mim se ajuntaram: amontoaram-se sobre mim açoites, e não o sabia.
16Foram dissipados, e não se arrependeram, tentaram-me, insultaram-me com escárnios: rangeram sobre mim os seus dentes.
17Senhor, quando tornarás a olhar-me? resgata a minha alma da malignidade deles, dos leões a única minha.
18Glorificar-te-ei na igreja grande, no meio do povo numeroso te louvarei.
19Não se regozijem sobre mim os que me são contrários injustamente: os que me aborrecem sem causa e acenam com os olhos.
20Porque na verdade me falavam com demonstrações de paz: mas falando na comoção da terra, maquinavam enganos.
21E alargaram sobre mim a sua boca: e disseram: Bem, bem, têm visto os nossos olhos.
22Tu o tens visto, Senhor, não cales: Senhor, não te apartes de mim.
23Levanta-te e atende ao meu juízo: Deus meu, e Senhor meu, na minha causa.
24Julga-me segundo a tua justiça, Senhor Deus meu, e não se alegrem sobre mim.
25Não digam em seus corações: Ainda bem, ainda bem, para nossa alma: nem digam: Nós o temos devorado.
26Fiquem envergonhados, e confundidos todos juntos, os que se congratulam dos meus males. Vestidos sejam de confusão e de vergonha os que falam com orgulho sobre mim.
27Regozijem-se e alegrem-se os que querem a minha justiça: e digam sempre: Engrandecido seja o Senhor, os que querem a paz do seu servo.
28E a minha língua publicará a tua justiça, todo o dia o teu louvor.
Tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo (1725–1797), segundo a Vulgata latina, onde este é o Salmo 34. Ortografia atualizada; texto do Pe. Antônio Pereira de Figueiredo (domínio público).
Texto original (grafia de 1866)
1Do mesmo David. Julga, Senhor, aos que me fazem damno, expugna aos que me combatem.
2Toma as tuas armas e o teu escudo: e levanta-te em meu soccorro.
3Tira da espada, e conclue contra aquelles que me perseguem: dize á minha alma: Eu sou a tua salvação.
4Sejão confundidos e envergonhados, os que busção a minha alma. Voltem atrás, e sejão confundidos os que meditão males contra mim.
5Sejão feitos como o pó ante a face do vento: e o anjo do Senhor os coarcte.
6Torne-se o seu caminho em trévas e escorregadio: e o anjo do Senhor os persiga.
7Por quanto sem razão me escondêrão o seu laço de morte: sem causa enchêrão de opprobrios a minha alma.
8Venha sobr'elle hum laço que ignora: e a rede que escondeo o prenda a elle: e caia no mesmo laço que elle armou.
9Mas a minha alma regozijar-se-ha no Senhor: e deleitar-se-ha em seu Salvador.
10Todos os meus ossos dirão: Senhor, quem he semelhante a ti? Que livras ao desvalido das mãos dos mais fortes que elle: ao necessitado e ao pobre dos que o roubão.
11Levantando-se testemunhos iniquos, cousas que não sabîa me perguntavão.
12Tornavão-me a mim males por bens: esterilidade á minha alma.
13Porém eu quando me erão molestos, me vestia de cilicio. Humilhava a minha alma com o jejum: e a minha oração dava voltas no meu seio.
14Como a proximo, e como a irmão nosso assim lhe comprazia: como hum que traz luto e está em tristeza assim me humilhava.
15E se alegrárão, e contra mim se ajuntárão: amontoárão-se sobre mim açoutes, e não o sabîa.
16Forão dissipados, e não se arrependêrão, tentárão-me, insultárão-me com escarneos: rangêrão sobre mim os seus dentes.
17Senhor, quando tornarás a olhar-me? resgata a minha alma da malignidade d'elles, dos leões a unica minha.
18Glorificar-te-hei na igreja grande, no meio do povo numeroso te louvarei.
19Não se regozijem sobre mim os que me são contrarios injustamente: os que me aborrecem sem causa e acenão com os olhos.
20Porque na verdade me fallavão com demonstrações de paz: mas fallando na commoção da terra, maquinavão enganos.
21E alargárão sobre mim a sua boca: e disserão: Bem, bem, tem visto os nossos olhos.
22Tu o tens visto, Senhor, não calles: Senhor, não te apartes de mim.
23Levanta-te e attende ao meu juizo: Deos meu, e Senhor meu, na minha causa.
24Julga-me segundo a tua justiça, Senhor Deos meu, e não se alegrem sobre mim.
25Não digão em seus corações: Ainda bem, ainda bem, para nossa alma: nem digão: Nós o temos devorado.
26Fiquem envergonhados, e confundidos todos juntos, os que se congratulão dos meus males. Vestidos sejão de confusão e de vergonha os que fallão com orgulho sobre mim.
27Regozijem-se e alegrem-se os que querem a minha justiça: e digão sempre: Engrandecido seja o Senhor, os que querem a paz do seu servo.
28E a minha lingua publicará a tua justiça, todo o dia o teu louvor.
Paráfrase moderna
Paráfrase em português de hoje — escrita especialmente para esta página, para ajudar na leitura; não é uma tradução bíblica.
1De Davi. Senhor, sê tu o juiz de quem me prejudica; enfrenta quem vem para cima de mim.
2Pega as tuas armas e o teu escudo e fica de pé para me socorrer.
3Desembainha a espada e fecha a passagem de quem me persegue; e fala bem dentro de mim: “Sou eu quem te salva.”
4Que passem vergonha e fiquem sem graça os que estão atrás da minha vida; que deem meia-volta, confusos, os que tramam o meu mal.
5Que virem poeira soprada pelo vento, com o anjo do Senhor a encurralá-los.
6Que a estrada deles fique escura e lisa como sabão, com o anjo do Senhor no seu encalço.
7Sem motivo nenhum esconderam para mim uma armadilha de morte; sem razão cobriram a minha vida de insultos.
8Que a cilada chegue sem ele perceber, que a rede escondida por ele mesmo o apanhe, e que ele tropece na própria armadilha.
9E eu vou me alegrar no Senhor, vou fazer festa no Deus que me salva.
10Até os meus ossos vão dizer: “Senhor, existe alguém igual a ti? Tu arrancas o fraco da mão de quem pode mais do que ele, e o pobre, o necessitado, da mão de quem o rouba.”
11Gente mentirosa se apresentou para depor contra mim e me fez perguntas sobre coisas de que eu nem sabia.
12Devolviam maldade em troca da bondade que tinham recebido; deixaram a minha alma seca e vazia.
13Mas eu, quando eles me afligiam, vestia roupa de penitência; fazia jejum para me humilhar diante de Deus e rezava de cabeça inclinada sobre o peito.
14Eu os tratava como a um amigo, como a um irmão; andava curvado como quem está de luto e carrega uma tristeza.
15Mas eles fizeram festa e se juntaram contra mim; os golpes caíram sobre mim aos montes, sem eu saber de onde vinham.
16Dispersaram-se, mas não se arrependeram; me puseram à prova, debocharam de mim e rangeram os dentes na minha direção.
17Senhor, quando vais voltar os olhos para mim? Tira a minha vida da maldade deles; salva dos leões a única vida que eu tenho.
18Vou te agradecer diante da grande assembleia; no meio de um povo numeroso vou te louvar.
19Que não façam festa à minha custa os que me hostilizam sem justiça, os que me detestam sem motivo e piscam o olho uns para os outros.
20Falavam comigo com cara de paz, mas, no meio da agitação, planejavam enganos.
21Escancararam a boca contra mim e disseram: “Isso, isso! Nós vimos com estes olhos.”
22Tu também viste, Senhor: não fiques mudo; Senhor, não me deixes sozinho.
23Levanta-te e cuida do meu julgamento, meu Deus e meu Senhor; toma o meu partido.
24Dá a tua sentença sobre mim pela tua justiça, Senhor meu Deus, e não deixes que eles riam de mim.
25Que não pensem: “Pronto, era isso que a gente queria!”; que não digam: “Acabamos com ele.”
26Que todos juntos passem vexame e fiquem confusos, os que vibram com a minha desgraça; que se vistam de vergonha os que se acham grandes diante de mim.
27Que pulem de alegria os que torcem para que me façam justiça, e que repitam sem parar: “O Senhor é grande!”, todos os que desejam a paz do seu servo.
28E eu, com a minha língua, vou contar a tua justiça e cantar o teu louvor de manhã à noite.
É uma oração ousada: chama Deus para a luta, pede que a mentira caia na própria armadilha e termina em louvor. A Igreja o reza como um grito por justiça entregue nas mãos de Deus, nunca como maldição contra alguém. Aqui no AngelGuard você lê o salmo completo na tradução católica do Padre Figueiredo, entende cada verso e aprende a rezá-lo nas horas de injustiça.
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Significado do Salmo 35, verso a verso
4 min de leituraO Salmo 35 é a oração de um inocente que foi caluniado, perseguido e traído por gente a quem tinha feito o bem.
O Salmo 35 é a oração de um inocente que foi caluniado, perseguido e traído por gente a quem tinha feito o bem. Ele não se vinga por conta própria: leva a causa a Deus e pede que Deus seja, ao mesmo tempo, o seu juiz e o seu defensor. O salmo mistura imagens de tribunal, de guerra e de caça, e quem o reza logo percebe que são imagens: o que está em jogo é uma acusação falsa e a honra de quem não tem como se defender. Os números de verso aqui são os do Padre Figueiredo; neste salmo, eles são os mesmos nas Bíblias católicas e nas evangélicas.
Versos 1–3: Deus entra na luta. “Julga, Senhor, aos que me fazem dano, expugna aos que me combatem.” Expugnar é vencer quem ataca. O salmista pede a Deus que pegue as armas e o escudo e, no verso 3, que puxe da espada e feche o caminho dos perseguidores. Mas o pedido mais íntimo vem no fim desse verso: “dize à minha alma: Eu sou a tua salvação.” Antes de ver o inimigo cair, ele quer ouvir Deus falar dentro dele.
Versos 4–8: as palavras duras. São os versos de imprecação: que os perseguidores fiquem confundidos, que sejam como pó diante do vento e que caiam na armadilha que eles mesmos armaram; quem os encurrala e vai atrás deles é “o anjo do Senhor”. “Coarcte”, no verso 5, é uma palavra antiga para apertar, encurralar. Repare no verso 8: o salmista não inventa um castigo novo; pede que o mal volte contra quem o planejou, e deixa isso nas mãos de Deus. Quem reza esse verso hoje não deseja o mal a ninguém: entrega a Deus a sua causa e também quem lhe fez mal. A parte seguinte da página explica como um cristão pode rezar esses versos.
Versos 9–10: a alegria do pobre. “Todos os meus ossos dirão: Senhor, quem é semelhante a ti?” O corpo inteiro reza. E o motivo do louvor é o centro do salmo: “Que livras ao desvalido das mãos dos mais fortes que ele”. Deus está do lado de quem não tem força nem advogado.
Versos 11–16: a traição. Levantam-se “testemunhos iníquos”, testemunhas falsas que acusam o salmista de coisas que ele nem sabia. O que mais dói é a lembrança do bem que ele fez: quando eles o afligiam, ele jejuava, vestia-se de cilício e rezava, e os tratava “Como a próximo, e como a irmão”. Em troca, recebeu “males por bens”, zombaria e ranger de dentes.
Versos 17–21: “Senhor, quando tornarás a olhar-me?” O salmista tem a coragem de perguntar a Deus até quando. Pede que ele salve “dos leões a única minha”, a única vida que ele tem, e promete louvá-lo “na igreja grande”, a grande assembleia do povo. Enquanto isso, os inimigos falavam de paz, tramavam enganos e riam: “Bem, bem, têm visto os nossos olhos.”
Versos 22–28: “Tu o tens visto, Senhor”. A resposta à zombaria é simples: eles viram, mas Deus também viu. “Senhor, não te apartes de mim.” Vem então o pedido mais corajoso do salmo: “Julga-me segundo a tua justiça” (v. 24). Quem reza assim aceita ser julgado também. E o salmo termina num louvor que não acaba: “todo o dia o teu louvor”.
Senhor, juiz justo, tu vês o que ninguém vê. Toma a minha causa nas tuas mãos, defende a verdade e dize à minha alma: Eu sou a tua salvação. Guarda o meu coração do ódio, para que eu espere de ti a justiça que não consigo fazer sozinho. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.
Rezar o Salmo 35 contra os inimigos: o que a Igreja ensina
3 min de leituraMuita gente procura o Salmo 35 como “oração contra inimigos”.
Muita gente procura o Salmo 35 como “oração contra inimigos”. A pergunta é honesta e merece uma resposta honesta: um cristão pode, sim, rezar este salmo pedindo a Deus justiça e proteção contra quem lhe faz mal. O que não pode é usá-lo para desejar o mal a uma pessoa.
O clamor por justiça é cristão. A Bíblia não pede que a vítima finja que nada aconteceu. Jesus contou a parábola da viúva que não dava sossego a um juiz injusto e garantiu que Deus não deixará sem resposta os que ele escolheu e que clamam a ele noite e dia (Lc 18,1-8). No Apocalipse, os mártires perguntam a Deus até quando ele vai esperar (Ap 6,10). E o Catecismo ensina que, no Juízo final, se verá como “a justiça de Deus triunfa de todas as injustiças cometidas pelas suas criaturas” (CIC 1040). Pedir que a mentira caia, que o inocente seja defendido e que o mal não tenha a última palavra é rezar como a Igreja reza.
A vingança fica com Deus. O salmo começa com “Julga, Senhor”, e não com uma ameaça. Quem reza assim entrega a causa a Deus e desiste de se vingar por conta própria. É o que São Paulo pede: não devolver mal por mal e deixar o castigo para Deus (Rm 12,17-21). Jesus foi mais longe e mandou amar os inimigos e rezar pelos que nos perseguem (Mt 5,44). O Catecismo não deixa dúvida: “Odiar o próximo, querendo-lhe mal deliberadamente é pecado” (CIC 2303).
Como Santo Agostinho lia esses versos. Pregando sobre este salmo, Santo Agostinho lembrou que Jesus manda rezar pelos inimigos e respondeu que aqui fala a profecia. Nos versos 5 e 6, o salmista anuncia o que vai acontecer a quem se obstina no mal, e não o deseja: “predisse, não desejou”. E viu um sentido bonito no verso 4, “Sejam confundidos”: muitos que perseguiam Cristo, envergonhados, se converteram e passaram para o lado dos seus discípulos. A confusão que o salmo pede pode ser a que abre os olhos. Por isso Agostinho conclui: “Logo, desejou-lhes o bem.”
A Igreja também tem cuidado. Quando reformou a Liturgia das Horas, a Igreja deixou de fora três salmos inteiros e alguns versos de outros por causa das maldições, e diz o motivo: uma certa dificuldade psicológica, embora o próprio Novo Testamento reze com imprecações, como em Ap 6,10 (Instrução Geral da Liturgia das Horas, 131). Os versos duros continuam sendo Palavra de Deus, e por isso esta página traz o salmo inteiro. Bento XVI ensinou que as páginas difíceis da Bíblia se leem com uma chave: “o Evangelho e o mandamento novo de Jesus Cristo realizado no mistério pascal” (Verbum Domini, 42).
O inimigo verdadeiro. São Paulo lembra que o combate do cristão não se trava contra gente de carne e osso, e sim contra os espíritos do mal (Ef 6,12). Quando você rezar os versos 4 a 8, ponha diante de Deus a mentira, a injustiça e o mal que estão por trás do que você sofre, e não o nome de alguém para lhe desejar desgraça. Pela pessoa, reze como Jesus rezou: o Catecismo diz que “O perdão é o cume da oração cristã” (CIC 2844).
Senhor Jesus, que na cruz rezaste pelos que te crucificavam, toma a minha causa. Faz brilhar a verdade, defende quem não tem defesa e não deixes que o mal vença. Livra o meu coração do ódio e dá-me a graça de rezar por quem me feriu. Amém.
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O Salmo 35 no combate espiritual: Deus armado a seu favor
3 min de leituraPara quem vive o combate espiritual, o Salmo 35 é um dos salmos mais corajosos da Bíblia.
Para quem vive o combate espiritual, o Salmo 35 é um dos salmos mais corajosos da Bíblia. Ele pode ser rezado com ousadia, desde que se saiba quem luta e com que armas.
Quem luta é Deus. Santo Agostinho, pregando sobre o verso 2, “Toma as tuas armas e o teu escudo”, escreveu: “Grande espetáculo é ver Deus armado por ti.” E lembrou quais são as armas que Deus põe nas nossas mãos: a fé, que serve de escudo; a salvação, que protege a cabeça; e a espada do Espírito, a Palavra de Deus (Ef 6,16-17). E explicou por que essas armas não se veem: “Armamo-nos com a fé no que não vemos e derrubamos inimigos que não vemos.” Rezar o Salmo 35 é pôr a batalha nas mãos de quem já venceu.
O anjo do Senhor. Nos versos 5 e 6, é “o anjo do Senhor” quem encurrala e persegue os maus. O salmista não pede poder para si; pede que Deus mande o seu anjo. O Catecismo ensina que a vida humana, do começo ao fim, é acompanhada pela assistência e pela intercessão dos anjos (CIC 336). Quem reza este salmo pode pedir com confiança a ajuda de São Miguel e do anjo da guarda; a oração de São Miguel Arcanjo é o pedido que a Igreja põe nos nossos lábios.
A batalha dentro de você. O verso 3 pede: “dize à minha alma: Eu sou a tua salvação.” Agostinho ligou esse pedido a outro salmo, em que muitos dizem à alma do justo: “Não há salvação para ele em seu Deus” (Sl 3,3). Há vozes assim por fora e por dentro: a calúnia, o desânimo, a culpa que não passa. Contra elas, o salmo pede que Deus fale mais alto. Agostinho voltou a este verso nas Confissões, pedindo a Deus que o dissesse de um modo que ele pudesse ouvir (I, 5).
“Salmo 35 para quebrar maldição”? Circulam na internet vídeos que apresentam o Salmo 35 como fórmula para desfazer amarras e maldições, e muita gente pergunta qual é o salmo para “quebrar a macumba”. A Igreja não ensina nada disso. Nenhum salmo funciona como contrafeitiço, e tratar uma oração como se o efeito dependesse só das palavras é superstição (CIC 2111). A Igreja pede que se rejeitem a magia e a feitiçaria, mais ainda quando se quer fazer mal a alguém (CIC 2117). Por isso, pedir que um “trabalho” ou qualquer mal volte para quem o mandou não é oração cristã: Jesus manda rezar pelos que nos perseguem (Mt 5,44). Quem reza o Salmo 35 não recebe poder para devolver o mal a ninguém; entrega a justiça a Deus e deixa nas mãos dele quem fez o mal. Se você tem medo de que alguém tenha feito algo contra você, a resposta cristã não é outra prática: é a Confissão, a Missa, a oração de cada dia e a certeza de São Paulo: com Deus a nosso favor, ninguém pode nos vencer (Rm 8,31). O mal tem limite: Satanás é uma criatura, incapaz de impedir o Reino de Deus (CIC 395). Se o medo não passa, converse com o padre da sua paróquia.
Senhor dos exércitos, toma as tuas armas e o teu escudo e levanta-te em meu socorro. Fala à minha alma mais alto que as vozes do medo e da mentira; manda o teu anjo guardar a minha casa e dá-me a fé que luta e vence. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.
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Para que serve o Salmo 35 e como rezá-lo
2 min de leituraO Salmo 35 serve para levar a Deus uma injustiça que você está sofrendo e pedir que ele defenda a sua causa, sem deixar o rancor tomar conta.
O Salmo 35 serve para levar a Deus uma injustiça que você está sofrendo e pedir que ele defenda a sua causa, sem deixar o rancor tomar conta. É um salmo para rezar:
- Quando você é acusado sem razão, caluniado no trabalho, na família ou nas redes (vv. 11 e 20-21).
- Quando alguém a quem você ajudou se volta contra você (vv. 12-14).
- Quando você se sente pequeno diante de quem tem mais poder (v. 10).
- Por quem é perseguido por causa da fé ou por defender a verdade, perto ou longe de você.
- Num processo ou numa disputa, para que a verdade apareça e você não responda na mesma moeda.
Rezar e agir. O salmo não pede que você aguente calado. Se você sofre uma injustiça, procure quem pode ajudar: um advogado, a sua paróquia, pessoas de confiança. Se há violência, a sua segurança vem primeiro; a página da oração de perdão explica que perdoar não é aceitar a violência. Deus costuma defender o fraco também pelas mãos dos outros.
Como rezar, em cinco passos. 1. Conte a Deus o que está acontecendo, em detalhes, e como você se sente. O salmista não esconde a raiva, e você também não precisa esconder. 2. Reze o salmo inteiro, devagar. Nos versos duros, entregue a Deus o seu desejo de justiça, sem transformá-lo em desejo de desgraça. 3. Pare no verso 24, “Julga-me segundo a tua justiça”, e peça que Deus olhe também para você: se você tem alguma parte de culpa, que ele lhe mostre. 4. Reze por quem fez o mal, nem que seja uma frase, como Jesus pediu (Mt 5,44). 5. Termine com o verso 28 e o seu louvor de “todo o dia”.
Sem prazo nem número de vezes. Não há quantidade de dias nem horário que tornem o Salmo 35 mais eficaz. O que conta é a confiança com que você o reza.
Deus dos pobres, tu livras o fraco da mão do mais forte. Olha esta injustiça que me pesa: faz a verdade aparecer, protege quem não tem quem o defenda e dá-me paciência para esperar a tua hora. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.
Como a Igreja reza o Salmo 35: a voz de Cristo perseguido
2 min de leituraNa Liturgia das Horas, o Salmo 35 (34 nos livros litúrgicos) é rezado no Ofício das Leituras da sexta-feira da primeira semana do Saltério, dividido em três partes.
No Ofício das Leituras. Na Liturgia das Horas, o Salmo 35 (34 nos livros litúrgicos) é rezado no Ofício das Leituras da sexta-feira da primeira semana do Saltério, dividido em três partes. A Igreja reza os versos 1-2, o fim do verso 3, os versos 9 a 19, 22-23 e 27-28; ficam de fora o começo do verso 3, o trecho das imprecações (versos 4 a 8), a imprecação do verso 26 e os versos 20-21 e 24-25. Sobram a súplica, a dor da traição, a confiança e o louvor.
A voz da cabeça e do corpo. Santo Agostinho pregou sobre este salmo a pedido dos seus irmãos bispos e voltou a ele num segundo sermão. Ele ensinava a escutar aqui a voz de Cristo, “às vezes do corpo, às vezes da cabeça”. A cabeça é Jesus, que foi perseguido; o corpo é a Igreja, que continua a ser perseguida. O Catecismo ensina que os salmos, rezados por Cristo e cumpridos nele, são parte permanente e essencial da oração da Igreja (CIC 2597).
Odiado sem causa. Na Última Ceia, Jesus disse que nele se cumpria uma palavra das Escrituras: que o odiaram sem motivo (Jo 15,25). A fonte é o verso 19 deste salmo, “os que me aborrecem sem causa”, ou um verso parecido do Salmo 69.
Testemunhas falsas. O verso 11 fala de “testemunhos iníquos” que perguntam ao inocente coisas que ele nem sabia. No julgamento de Jesus, muitos depuseram falsamente contra ele, e os depoimentos nem combinavam entre si (Mc 14,55-59). Jesus ficou em silêncio (Mc 14,61).
O justo que se entrega a quem julga. O salmista grita “Julga, Senhor”; Jesus, insultado, não devolvia o insulto e se entregava àquele que julga com justiça (1Pd 2,23). Na cruz, rezou pelos que o crucificavam (Lc 23,34). É o caminho que o salmo abre e que Jesus percorreu até o fim: pedir justiça a Deus sem pedir a ruína de ninguém. E o louvor “na igreja grande” (v. 18), depois da Páscoa, é o da Igreja inteira, que celebra a vitória do inocente condenado.
Senhor Jesus, odiado sem causa e acusado por testemunhas falsas, tu conheces a dor de quem é injustiçado. Fica comigo quando eu for caluniado, ensina-me a tua confiança no Pai e sustenta os teus irmãos que hoje são perseguidos por causa da fé. Amém.
Salmo 35 ou Salmo 34? A numeração e a tradução
2 min de leituraA numeração hebraica, seguida pela maioria das Bíblias atuais e pelas buscas na internet, chama este salmo de 35.
Dois números, o mesmo salmo. A numeração hebraica, seguida pela maioria das Bíblias atuais e pelas buscas na internet, chama este salmo de 35. A grega e latina, seguida pelo Padre Figueiredo e pelos livros litúrgicos, chama de 34, porque nela os Salmos 9 e 10 contam como um só. Os versos, neste salmo, têm o mesmo número nas Bíblias católicas e nas evangélicas.
Cuidado com a Ave-Maria. Se a sua Bíblia é a Ave-Maria, que usa a numeração antiga, procure o Salmo 34: lá, o “Salmo 35” é outro salmo, sobre a maldade do ímpio. E quem procura “salmo 34” encontra, na maioria das Bíblias, outro salmo: o que o Padre Figueiredo numera como 33 e que começa “Bendirei o Senhor em todo o tempo”.
A tradução que você lê aqui. O texto é o do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, sacerdote português do século XVIII que traduziu a Bíblia inteira a partir da Vulgata latina. Nesta página o texto está em ortografia atualizada, com algumas palavras antigas trocadas pela forma atual, sem mudar o sentido; junto ao salmo, no início da página, você encontra também a grafia original da edição de 1866 (“Deos”, “damno”, “soccorro”…). No livro, este é o Salmo XXXIV.
Perguntas
O que diz o Salmo 35?
O Salmo 35 é a oração de um inocente perseguido. Ele pede a Deus que seja o seu juiz e o seu defensor (“Julga, Senhor, aos que me fazem dano”), conta como testemunhas falsas o acusaram e como retribuíram com maldade o bem que ele fez, e termina louvando a Deus, que livra o fraco das mãos do mais forte. O texto completo, na tradução católica do Padre Figueiredo, está no início desta página.
Para que serve o Salmo 35?
Serve para levar a Deus uma injustiça, uma calúnia ou uma traição e pedir que ele defenda a verdade, sem tentar se vingar sozinho. Também é uma oração por quem sofre perseguição por causa da fé. Não é uma fórmula que funciona por repetição: o que conta é a confiança em Deus com que se reza.
Qual é o Salmo 35 para quebrar a macumba?
O Salmo 35 é uma oração firme, que pede ao próprio Deus que se levante em sua defesa; mas não é um contrafeitiço, e nenhum salmo funciona como fórmula para “quebrar macumba”. A Igreja pede que se rejeitem a magia e a feitiçaria (CIC 2117) e chama de superstição tratar uma oração como fórmula mágica (CIC 2111). Pedir que o mal volte para quem o mandou também não é oração cristã: Jesus manda rezar pelos que nos perseguem (Mt 5,44), e a justiça fica nas mãos de Deus. Se você tem medo de que alguém tenha feito algo contra você, reze o Salmo 35 como ele é: um pedido de proteção a Deus, que é mais forte que qualquer mal. Procure a Confissão e a Missa e, se o medo continuar, converse com um padre.
É pecado rezar o Salmo 35 contra os inimigos?
Pedir a Deus justiça e proteção contra quem faz o mal não é pecado: é o que o salmo faz. Usá-lo para desejar o mal a uma pessoa, sim. O Catecismo é claro: “Odiar o próximo, querendo-lhe mal deliberadamente é pecado” (CIC 2303). E Jesus manda rezar pelos que nos perseguem (Mt 5,44). Entregue a Deus o julgamento e reze também por quem feriu você.
Qual é a oração do Salmo 35 contra os inimigos?
Não existe uma oração oficial do Salmo 35 contra os inimigos: a melhor oração é o próprio salmo, rezado inteiro e devagar. Para fechar com palavras suas, você pode rezar assim: “Senhor, tu viste o mal que me fizeram. Levanta-te em meu socorro, faz a verdade aparecer e não deixes a mentira vencer. Que o teu anjo me guarde e guarde os meus. Livra o meu coração do ódio e converte quem me feriu. Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação. Amém.” Ela não amaldiçoa ninguém: pede justiça, proteção e a conversão de quem fez o mal.
Como rezar o Salmo 35?
Conte a Deus, com as suas palavras, a injustiça que você está vivendo. Depois reze o salmo inteiro, devagar, entregando a Deus o desejo de justiça nos versos duros. Pare no verso 24, “Julga-me segundo a tua justiça”, reze por quem fez o mal e termine com o louvor do verso 28. Uma oração curta para começar: “Senhor, tu viste tudo; defende a minha causa e guarda o meu coração do ódio.”
Por que algumas Bíblias chamam de Salmo 34?
Existem duas numerações dos Salmos. A hebraica, usada na maioria das Bíblias atuais, chama este salmo de 35. A grega e latina, seguida pela tradução do Padre Figueiredo e pelos livros litúrgicos, chama de 34, porque nela os Salmos 9 e 10 contam como um só. É o mesmo salmo; muitas edições trazem “Salmo 34(35)”. Se a sua Bíblia é a Ave-Maria, que usa a numeração antiga, procure o Salmo 34: lá, o “Salmo 35” é outro salmo, sobre a maldade do ímpio.


